Autoridade e Discilpina Amorosa
Como devemos agir quando os filhos são indisciplinados e controlam tudo, fazem o querem e mandam e desmandam?
É uma questão de autoridade e limites. Duas palavrinhas que podem causar até arrepios nos pais mais liberais. Eles, possivelmente sofreram com uma educação muito rígida, onde autoridade e disciplina eram conquistadas muitas vezes através de castigos físicos.
Não é esse o caso. Autoridade e disciplina podem sim ser conquistadas de maneira bem mais suave e amorosa. É uma questão que mora dentro de nós e aparece através das nossas acções. Os limites devem ser sempre bem claros: o que é sim, é sim. E não é definitivamente não. Muitas vezes não há acto de mais amor do que dizer um não para uma criança.
Acções coerentes:
Ter sempre coerência com a criança é fundamental. Por isso os exemplos vindos dos próprios pais devem ser correctos. A criança ainda não consegue fazer julgamentos do que é certo e errado. Nós é que temos que fazer isso por ela (só será capaz de fazê-lo por si própria com consciência, por volta dos 12 anos). Então as explicações para um NÃO devem ser coerentes e simples para que ela possa perceber. Não tente convencer a criança de que ela não quer algo. Aceitar o desejo dela é uma boa atitude, mas se a resposta ao final é NÃO, é isso que deve prevalecer.
Exemplo: “eu sei que queres muuuuuiiiito comer bolachas antes do almoço, mas se comeres bolachas não vais ter fome para almoçar. As bolacha são para o lanche, não é para o almoço”. Ponto final. E os pais têm mesmo que aguentar a choradeira sem problemas. Isso faz parte. Deixe que ela expresse a sua frustração o quanto quiser, tambem tem direito. É só não ligar, não colocar energia neste acto e mudar de assunto. Não há nada pior que mandar uma criança parar de chorar. Primeiro porque isso não adianta muito, depois acaba por ser duas frustrações seguidas. É demais.
Crianças espertas:
As crianças percebem rapidamente como conseguir o que querem através das reacções dos pais. Então, quando ficam frustradas por não conseguirem o que querem, elas reagem atingindo algum ponto fraco dos pais, avós, enfim, cuidadores, e é por aí que elas vão conseguir o que querem.
Por exemplo: uma criança que ao se frustrar, começa a bater a cabeça no chão. Os pais reagem com medo de que ela se magoe, vão logo tentar amenizar a situação e dão o que ela quer. Se os pais tiverem firmeza, coerência e confiança, a criança vai perceber que aquele artifício não funcionou.
Ela pode tentar usar vários desses artifícios, até conseguir quebrar os pais: puxar os cabelos, ficar sem comer e por aí. Não é fácil.... E as vezes esses casos parecem mesmo sem solução que é preciso pedir ajuda externa.
Crianças espertas (Parte II):
As crianças começam a testar os nossos limites por volta de 1 ano e meio. Mandam comida para o chão, tiram as roupas das gavetas para o chão, entre tantas outras coisas. Isto para elas é uma brincadeira, mas é assim que começam a perceber as reacções dos adultos diante de suas atitudes. Quanto mais dizemos que não podem fazer algo, mais elas fazem como se estivessem a testar os nossos limites. E a coisa mais certa é: quanto mais damos atenção a esses testes, mais elas querem interagir, tomando o partido de oposição. Tirar a platéia é uma óptima dica. Se o problema é mandar a comida para o chão, mostre-lhe que o que ela está a fazer é errado e peça ajuda para limpa. As criança adora tarefas e gosta de imitar os mais velhos nas actividades do dia-a-dia. A criança só nos pode “tirar do sério” quando acerta nos nossos pontos fracos, ela sabe exactamente por onde nos desestruturar. Por isso é importante saber que educar é se auto-educar!
Desfazendo a acção opositora da criança:
Essas acções opositoras variam no grau de intensidade com a idade e é sempre uma questão de testar e saber os seus limites. Assim, quando entramos em conflito com as crianças, o desgaste para nós é tão grande, que acabamos cedendo. O famoso “não” que mais tarde se transforma em “sim”. É importante não ceder para que ela saiba os limites. E o melhor seria saber agir rápido antes de chegar a esse desgaste. Então, a dica é desviar a situação transformando-a em outra rapidamente. Começar desde cedo é o melhor, pois elas crescem sabendo quais são esses limites e dificilmente os pais irão enfrentar situações mais graves de perda de autoridade mais tarde. Deixar a criança chorar bastante por alguma coisa que é "não" e no final acabamos cedendo e ela vira "sim", pode educar para a falta de auto-estima, o masoquismo, ela aprende que se chorar bastante acaba por ganhar alguma coisa, mesmo que sejam migalhas.
Exemplos de como transformar as acções opositoras em acções positivas:
- a criança não quer sentar na cadeirinha do carro. Recusa-se e esperneia. Atacar para as cócegas é uma óptima ideia, pois a oposição transforma-se em brincadeira.
- a criança não quer escovar os dentes, cantar uma música que ela gosta pode funcionar. De preferência uma que tenha bastante AAAAAAAAA para ficar de boca aberta.
- a criança está a tirar tudo para fora da gaveta, tente chamar a atenção para outra coisa, como ver pela janela o cão, ou “olha o que eu achei aqui”.
Funções Maternas e Paternas:
Quando nos tornamos pais, cabe-nos exercer várias funções perante o filho. E não importa quem exerça essas funções, pois elas não estão claramente divididas e pais e mães trocam todo de funções constantemente.
Mas mesmo assim a maioria das vezes acontece de maneira natural que os pais assumam mais as funções de estabelecer regras e pôr limites e as mães acabam assumindo o cuidar, o acolher, o alimentar.
E quando nos vemos nessa situação onde o casal passa a ser uma família, deixamos de ser uma dupla, e passamos a um trio. E entre três elementos pode sempre haver um desequilíbrio. É preciso prestar muita atenção nas funções de cada um. Quem assume as funções maternas (independentemente se é a mãe ou o pai), tende a sempre acolher e proteger o filho em tudo, criando uma espécie de aliança e cumplicidade. E quem assume a função paterna, acaba sempre por ficar à parte, sendo o opositor. Estas situações acabam por gerar dissonâncias entre o casal, onde um tira a autoridade do outro e o desequilíbrio familiar é completo. A criança não suporta ficar sozinha (sem atenção), então estará sempre em busca de um aliado nestas situações (a mãe, o pai, a avó...). É aquela criança que tenta ser o queridinho do professor ou que se zanga quando o amiguinho escolhido tem outros amigos.
Controlo:
A criança que tem o controlo nas mãos determina quando os pais conversarão entre si, determina quando a mãe poderá falar com outras pessoas, determina as actividades de todos que a rodeiam. Ela não sossega, sempre dizendo o que ela quer e o que os outros devem fazer. Essa criança esta sempre tensa, atenta, mas a partir do momento que o controlo é tirado das suas mãos, ela relaxa. Ela não tem que controlar mais nada, ela confia que os pais sabem o que é melhor para ela e para eles próprios. Por isso, limites claros determinados pelos pais são fundamentais para um desenvolvimento sádio da criança. A família é como um triângulo, onde cada um tem o seu lugar e estão todos ligados.
Relações entre irmãos:
As relações entre os irmãos vai ser sempre uma ligação muito forte de amor e também de ódio. Os pais que melhor sabem lidar com isso, são os que se metem o mínimo na relação dos irmãos, deixando que eles a resolvam. Quando os pais conseguem fazer isso, estão a dar aos filhos, a oportunidade de se tornarem cúmplices, e capazes de sanar as diferenças. Quando os pais tomam o partido do mais fraco, o que sempre apanha (o mais novo, muitas vezes), estão a tirar essa possibilidade. Muitas vezes o mais fraco é o provocador, e acaba por apanhar por isso. A culpa cai sempre para o mais forte. E o mais fraco estará sempre em busca dessa protecção a fim de ter atestado o seu valor e importância diante dos pais
E lembrem-se: As relações básicas que são entre pai, mãe e criança, vão-se projectar em todas as relações posteriores durante toda a vida desta criança. Se essa criança não recebe limites dos pais, as suas relações futuras com outras pessoas também serão sempre na busca por esses limites. Se nesta relação não houver respeito, o desrespeito crescerá junto com essa criança em todas as suas relações. E em casos mais graves, se essa criança cresce sem amor, ela não poderá estabelecer nenhum vínculo de amor com qualquer outra pessoa.
Citando o filósofo Humberto Maturana: “Criança que não cresce no amor, não cresce como um ser social”
Autor: Dr. Antonio Carlos de Souza Aranha, médico pediatra antroposófico e terapeuta de família.

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